Ambivalência: aridez e flores

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Padre Ricci é pároco da Paróquia de São Cristóvão e diretor da Faculdade João Paulo II

O tempo seco favorece o nascimento das flores no inverno, como as dos ipês que estão nos presenteando pelas ruas de nossa cidade, estradas e área rural. Com o tempo seco nosso corpo sofre, sobretudo com doenças respiratórias. Eis apenas uma das inúmeras ambivalências presentes em nosso cotidiano e na história da humanidade. Aridez e flores é uma ambivalência natural/ambiental, mesmo considerando que a ação humana, ecologicamente não sustentável, potencializa os efeitos negativos do tempo seco na saúde da população. Se a ambivalência natural é tantas vezes bela, o mesmo não se pode dizer das ambivalências geradas pelo progresso científico-tecnológico, por exemplo. A coexistência de objetivos antagônicos, na mesma ação com dois efeitos, um positivo e outro negativo, exige de nossa consciência sabedoria e prudência para poder conjugar ciência e ética. O ser humano sempre foi capaz de escolher o bem e de evitar o mal por meio da reta razão, não contaminada pelos interesses egoístas e destrutivos.
Em tempo de seca pedimos chuva. A ausência valoriza o objeto desejado. Queremos o que não temos. Com o salmista rezamos: “minha alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água” (Sl 62). Enquanto caminhamos neste mundo, como peregrinos, rumo à Pátria definitiva, o Bom Deus, Criador de tudo, nos convida a contemplarmos o belo que é bom. Pelas criaturas chegamos ao Criador! Como é bom receber flores lançadas pelos ipês que enfeitam os nossos carros, tocam o nosso corpo e formam tapetes, generosamente tecidos para que passemos sobre eles com atitude de respeito e gratidão. Certamente um mimo do Criador para seus filhos e filhas.
No cenário complexo como o contemporâneo não há mais espaço para maniqueísmos. Parece que o modo de pensar mais plausível é o dialético, que acolhe as inevitáveis ambivalências, contudo rejeitando o que é mal ou danoso à vida. A complexidade da vida permite dizer que a maioria dos casos e fatos não tem resposta clara e definitiva, o que exige um esforço maior de compreensão e discernimento ético. A dialética se aproxima daquilo que Mounier chamou de “otimismo dramático”, ou seja, aquele otimismo que acolhe as tensões e busca o maior bem possível.
O sol e os dias belos não eliminam a ambivalência do tempo, que segue seco e traz sofrimento para as pessoas. Mutatis mutandis: se não houver chuva está valendo a beleza das flores! Que venha a chuva! Porém, que permaneçam as flores, antecipação da primavera. Afinal, a vida sempre vence e renasce. Na ótica da fé cristã podemos sintetizar a ambivalência com duas frases, respectivamente uma chamada “mantra” e a outra de Santo Agostinho: “indo e vindo, trevas e luz, tudo é Graça, Deus nos conduz”; “fizeste-nos para ti Senhor, inquieto estará o nosso coração enquanto não repousar em ti”.

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