Sleeve, cirurgia de redução de estômago

0
4613
Fotografia com Açucar

Médico Paulo Pittelli explica os motivos que levaram essa técnica bariátrica a se tornar a mais realizada no mundo; ela também é feita em Bauru.

A obesidade é um dos fatores de risco mais importantes para a saúde pública no século XXI. Atualmente, 30% da população mundial está obesa ou com sobrepeso. Segundo dados do Ministério da Saúde publicados no ano passado, na última década a obesidade cresceu 60% no Brasil. Com ela também aumentaram significativamente a porcentagem de pessoas com diabetes, que passou de 5,5% em 2006 para 8,9% da população em 2016 e a de hipertensos, que passou de 22,5% para 25,7% no mesmo período.

“No Brasil, a técnica de cirurgia bariátrica chamada de bypass ainda é a mais realizada. Somos o segundo país no ranking dos que mais realizam cirurgias bariátricas no mundo. Já a gastrectomia vertical ou simplesmente Sleeve é atualmente a técnica mais realizada no mundo todo. E é dela que falaremos aqui”, afirma o médico Paulo Pittelli, especialista em cirurgias do aparelho digestivo.

“Quando nos alimentamos, grande parte da saciedade vem da distensão do estômago. Por isso, pacientes que estão acostumados a comer bastante volume, precisam comer muito para se sentirem satisfeitos. O paciente, depois dessa cirurgia, não consegue comer muito porque seu estômago ficou pequeno e quase não se distende, produzindo saciedade mais rapidamente, avisa Pittelli.”

Como funciona a Sleeve

A técnica consiste no grampeamento longitudinal do estômago, quando são retirados de 70-80% do órgão. Não há desvios no intestino e seu benefício vem basicamente de dois fatores, um mecânico e outro endócrino. O fator mecânico acontece porque o estômago é reduzido no volume e na sua capacidade de distensão. O resultado é um reservatório de apenas 80-100 ml.

“O fator endócrino acontece porque quando retiramos essa grande parte do estômago, retiramos a parte que produz um hormônio chamado grelina, que é responsável pela sensação de fome quando o estômago se esvazia. Também por isso, temos menos desejo de comer ou mais saciedade com essa cirurgia”, complementa o médico.

É uma técnica cirúrgica muito mais simples de se executar do que o bypass, por exemplo, exigindo menos expertise do cirurgião. Equipes experientes são capazes de realizar uma gastroplastia vertical por laparoscopia em apenas 30 a 40 minutos. O índice de complicações é ligeiramente menor do que no bypass e o resultado é muito semelhante em termos de porcentagem de perda do excesso de peso.

Há ainda a vantagem de se alterar muito pouco a anatomia normal, preservando o trânsito dos alimentos pelo duodeno, onde há a absorção de ferro, cálcio, zinco e vitaminas do complexo B. Como o duodeno está preservado, quase não há sintomas da síndrome de dumping, que geralmente ocorre quando há o esvaziamento rápido do estômago, bem mais comum no bypass (veja mais detalhes no final do texto) .

“Como não há desvios no intestino, não são necessárias as anastomoses, que seriam as junções entre as partes intestinais seccionadas. Também não há dificuldade na absorção de vitaminas. Por isso, o paciente dificilmente necessitará de suplementos vitamínicos como no bypass”, explica Pittelli.

Quem pode fazer a cirurgia?

É preciso ter entre 16 e 65 anos. Para menores de 16 anos, há apenas cirurgias em caráter experimental. Nos pacientes acima de 65 anos, precisa haver um consenso entre os médicos que acompanham o paciente, como endocrinologista, cardiologista e cirurgião do aparelho digestivo. Mas são casos excepcionais”, adverte Pittelli.

“Além disso, os pacientes tem que ter Índice de Massa Corporal (IMC) com valor acima de 40 ou entre 35 e 40 quando o paciente tem as doenças associadas à obesidade, o que comumente chamamos de comorbidades e que classicamente são o diabetes tipo II, apnéia do sono, hipertensão arterial, dislipidemia, doença coronariana e as osteoartrites”, explica.

O Conselho Federal de Medicina (CFM), numa resolução em 2015, determinou a inclusão de outras doenças nesta lista: doenças cardiovasculares (infarto do miocárdio, angina, insuficiência cardíaca congestiva, acidente vascular cerebral, hipertensão e fibrilação atrial, cardiomiopatia dilatada, cor pulmonale e síndrome de hipoventilação), asma grave não controlada, osteoartroses, hérnias discais, refluxo gastroesofágico com indicação cirúrgica, colecistopatia calculosa, pancreatites agudas de repetição, esteatose hepática, incontinência urinária de esforço na mulher, infertilidade masculina e feminina, disfunção erétil, síndrome dos ovários policísticos, veias varicosas e doença hemorroidária, hipertensão intracraniana idiopática, estigmatização social e depressão.

Pacientes com Índice de Massa Corporal (IMC) entre 30 e 35 e portadores de diabetes mellitus tipo II, sem adequada resposta ao tratamento clínico convencional, poderão ser tratados com cirurgia, segundo o parecer do CFM de novembro de 2017 que reconhece a cirurgia metabólica como opção para o tratamento de diabetes tipo II, mas preconiza o bypass como a principal escolha neste caso.

 

Quais são as vantagens do Sleeve?

● Produz perda de peso rápida; é possível perder entre 50-70% do excesso de peso;
● Mais fisiológica, porque não tem desvios intestinais;
● De execução mais rápida porque não tem as anastomoses intestinais;
● Menos anemia no pós-operatório;
● Menos distúrbios vitamínicos com pouca ou nenhuma necessidade de suplementação vitamínica no pós-operatório;
● Todo o tubo digestivo superior pode ser avaliado internamente com uma endoscopia;
● Não é necessária a colocação de dispositivos dentro do corpo do paciente como na banda gástrica ajustável;
● Chance de apresentar a síndrome de dumping é muito menor do que no bypass;
● Tem risco de complicações muito baixo.
Quais são as desvantagens?
● Técnica nova sem tempo de segmento muito longo;
● Menor porcentagem de controle do diabetes grave quando comparada com o bypass (numa revisão sistemática de 27 estudos, o diabetes tipo II foi resolvido em 66.2% dos pacientes que se submeteram ao Sleeve, melhorou em 26.9% e permaneceu estável em 13.1% dos pacientes);
● Não é preconizada para os pacientes com refluxo gastroesofágico (DRGE) severo, onde o bypass tem resultado melhor. Atenção: a maioria dos pacientes com DRGE podem ser operados com melhora importante dos sintomas.

 

O que é Síndrome de Dumping

É uma condição que acontece em alguns pacientes que foram submetidos a cirurgias com ressecções parciais ou completas do estômago. Por isso, também acontece nas cirurgias bariátricas onde há algum tipo de ressecção gástrica e ocorre basicamente por causa do rápido esvaziamento gástrico.
Existe a Síndrome de Dumping precoce, que acontece após alguns minutos da refeição e é causada pela passagem rápida de alimentos com alta concentração de açúcares e gorduras para a parte proximal do intestino. O alimento que é hiperosmolar faz com que haja a transferência de líquidos dos vasos sanguíneos para o interior das alças intestinais, causando distensão e contrações do intestino. Os sintomas podem ser mal estar, náuseas, vômitos, rubor, sudorese e diarréia.
Já a Síndrome de Dumping tardia ocorre uma ou duas horas após a refeição e acontece porque a presença do alimento hipercalórico no intestino provoca um aumento exagerado da secreção de insulina, o que por sua vez resultaria em hipoglicemia. O paciente pode sentir dificuldades de concentração, sudorese e taquicardia. Também pode haver queda da pressão arterial e até mesmo desmaios. “Poucos pacientes apresentam a Síndrome de Dumping, mas quando ela ocorre, é muito mais comum nos pacientes de bypass. O tratamento é feito basicamente com orientação dietética e comportamental”, finaliza o médico.

Entenda como a técnica foi desenvolvida

Em 2002, o médico canadense Michel Gagner estava preocupado com as complicações e a mortalidade perioperatórias de pacientes com doenças graves associadas à obesidade e com os pacientes superobesos. Ele propôs uma cirurgia bariátrica realizada em duas etapas. No primeiro ano, seria feita a redução do estômago propriamente dita, que é o que conhecemos hoje como Sleeve. No segundo ano, se complementaria a cirurgia com o desvio do intestino com uma técnica conhecida como Duodenal Switch.
“O que acabou surpreendendo a todos foi que vários pacientes que foram submetidos à primeira etapa da cirurgia tiveram resultados tão satisfatórios que acabaram se recusando a participar da segunda fase ou segundo tempo da cirurgia. Assim surgiu esta técnica que se demonstrou bastante eficaz, tanto no controle da obesidade, como no controle das doenças associadas a ela”, disse o médico.
Aviso importante

“A cirurgia, independente da técnica escolhida pelo cirurgião e pelo paciente, não é isoladamente a solução para a obesidade. O procedimento cirúrgico sem mudança de hábitos e comportamentos não é capaz de provocar uma perda do excesso de peso de forma adequada e duradoura. Mesmo que se consiga a tão desejada perda de peso, é imprescindível que outras medidas, como dieta, exercícios físicos, mudanças de comportamento e de estilo de vida aconteçam. A técnica chamada de bypass continua sendo uma ótima escolha para alguns casos e nós a realizamos rotineiramente”, afirma Pittelli.

 

 

Doutor Paulo Pittelli 

Médico especialista em cirurgiã geral (RQE 23060) e cirurgiã do aparelho digestivo ) e Cirurgia do Aparelho Digestivo (RQE 23061) trata das doenças do aparelho digestivo e faz as cirurgias relacionadas a essas patologias e cirurgias para obesidade.
Facebook: gastrodrpaulopittelli
Site: www.drpaulopittelli.com.br

Deixe uma resposta