No tempo em que se roubava cavalo

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Meu pai se dizia “lavrador”, porque tinha terras herdadas do meu avô. Quando a colheita ia bem, ganhava algum dinheiro. Mas, quando por falta de chuva ou excesso a lavoura arcaica ia mal, arcava com os prejuízos. Feitas as contas, corria atrás de plantar outra vez: feijão, milho, algodão. A única coisa que o aborrecia, a ponto de tirá-lo do sério era roubo de cavalo. Desaparecido o animal, saía campeando pelas vizinhanças até encontrar o ladrão e o produto do furto ou do roubo. Pouco importavam as diferenças legais que distinguem furto de roubo. A sabedoria popular reduzia tudo a roubo. Quem, às caladas da noite furta cavalo, escondendo-o, mesmo sem agredir o silêncio da madrugada está roubando. E precisa ser punido sem dó nem piedade, “para largar mão de ser sem-vergonha”.
Dizia-se que nome comprido era indício de “ladrão de cavalo”. Descoberto, ele era obrigado a devolver o animal ao dono, sem faltar um só fio de cabelo, da crina ao rabo. Se ainda escapasse com vida, era por sorte. Linchar ladrão de cavalo era comum, mesmo depois de entregar o cavalo ao legítimo dono. No mínimo, não escapava de puxar cadeia prolongada. Esse negócio de presídio semiaberto ainda não havia sido inventado. Muito menos a prisão domiciliar. Cumprida a pena o caboclo tinha que desaparecer das cercanias, se tivesse amor à vida.
Hoje as coisas estão mudadas. O sujeito, de paletó e gravata rouba milhões de reais pertencentes ao povo; esconde dinheiro em paraísos fiscais; leva dólares na cueca; farreia com os recursos da nação em restaurantes estrelados da Europa, e ainda sai impune, mesmo depois de desmascarado. O jovem juiz federal Sérgio Moro, resolveu acabar com esse final feliz (para o ladrão), mandando alguns para a cadeia. Por pouco tempo, é verdade. Existe uma tal de delação premiada que transforma penas de prisão em simples detenção domiciliar. Numa passa de mágica, vinte anos viram dois. Esse tem sido o custo para a Justiça e a Polícia aprenderem os meandros do crime, para depois pôr a mão nos verdadeiros chefes da quadrilha. Quem sabe dá certo, antes que prendam o prendedor.
Agora, inventaram outra novidade. A legalização do dinheiro ilícito aguardado às escondidas no exterior, “desde que a origem seja licita”. Não me pergunte como dinheiro ilicitamente guardado na Suíça, Ilhas Cayman ou aonde quer que seja, pode ter origem lícita. Assim, estão repatriando bilhões de reais. Os simples mortais, trabalhadores, pagam até 27,5% de Imposto de Renda sobre os salários. Eles, pagam apenas 15%. Se nós sonegarmos, o fisco nos multa em 120%. Eles, pagam apenas 15% pela repatriação do butim escondido no além mar. Ora, repatria-se exilado, constrangido a deixar a pátria. Em corrupção não há pátria, tampouco sentimento patriótico em quem surrupiou milhões e milhões do povo, escapando dos impostos. O governo justifica dizendo que precisa do dinheiro das multas e do imposto, para tapar uma parte do rombo no orçamento da República. Essa cratera aberta nas contas é consequência dos desmandos desse que, no momento, “repatriam” o dinheiro escondido.
Fico pensando como o meu pai reagiria ao ouvir essa terminologia moderna: delação premiada, prisão domiciliar, semiaberto, etc. No tempo do meu velho, não se perdoava ladrão de cavalo, de galinha, de cabrito, de porco ou de qualquer outra coisa. Ainda mais, dinheiro! Ladrão era ladrão. Tinha que devolver o que roubou e ainda puxar cadeia até aprender a não bolir com as coisas dos outros.

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