Branqueamento da Mãe Negra Aparecida

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Padre Ricci é pároco da Paróquia de São Cristóvão e diretor da Faculdade João Paulo II
Padre Ricci é pároco da Paróquia de São Cristóvão e diretor da Faculdade João Paulo II

O cantor e compositor Oswaldo Montenegro pede que “a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba”. De fato, a arte é meio para se buscar respostas, sentido e, inevitavelmente, novas perguntas. A arte nos provoca reflexão. Pois bem, visitando algumas lojas, especialmente no entorno da Basílica de Nossa Senhora Aparecida, me surgiu uma questão inquietante: por que será que a tradicional imagem da Mãe Negra Aparecida foi branqueada? Pelas vitrines e lojas me deparei com vários “tipos” de imagens: de cor branca, dourada, com manto branco e dourado, imagem totalmente branca com alguns traços em azul, etc. A tradicional imagem negra com o manto azul corre o risco de ser substituída pela nova tendência? A arte de customizar e agregar valor ao produto será que foi incorporada pela representação simbólico-religiosa? A criatividade é o espírito da arte. Por essa razão, deve ser respeitada e valorizada. Contudo, “mudar” um símbolo que no próximo ano completará 300 anos de aparição é arte, estratégia ou comércio?
Urge considerar que a Mãe de Jesus apareceu na cor negra num contexto de escravidão e de desrespeito à dignidade humana. Do ponto de vista filosófico e antropológico a escravidão é um pecado imperdoável, tanto pelo que fez quanto pelo “resíduo” de preconceito e exclusão que deixou. Trata-se de uma dívida impagável, de um pecado imperdoável. Os irmãos afrodescendentes carregam até hoje marcas indeléveis do passado. A imagem da Mãe Negra nos recorda o pecado e nos inspira a lutar contra todas as novas formas de escravidão e preconceitos. Branquear a imagem pode implicar no esquecimento da culpa e do sentido profundo da aparição. Afinal, são quase 300 anos da aparição acompanhada de graças, milagres, devoção sincera e conversão. Embora não tenhamos vivido no passado, quando a escravidão era permitida, somos sim responsáveis pelas consequências e marcas que o passado deixou . A mesma imagem negra que emociona e comove, também convida para a justiça restaurativa, respeito e acolhimento. O que fazer para restaurar e garantir aos negros e negras, de fato e não apenas de direito, as mesmas oportunidades e lugares?
A questão não é tanto se posicionar a favor ou contra os novos “modelos” da imagem da Mãe Aparecida. As preocupações são outras. Na cultura do acessório o essencial se enfraquece. Que a arte nos provoque a pensar criticamente acerca dos novos modelos, belos sim, porém… O belo é companheiro inseparável do bom e do verdadeiro. Acentuar o belo, em detrimento do bom e verdadeiro, seria arte ou reforço de ideologias e tendências dominantes? Não se trata de fazer um juízo de valor, tampouco de condenação, mas apenas de colocar uma questão para reflexão. Que a arte nos aponte uma resposta… Afinal, está chegando o dia de Nossa Senhora Aparecida. Feliz festa da Mãe Negra!

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