Por baixo da farda, um grande coração

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À frente do 4.º BPM-I desde janeiro de 2020, o tenente-coronel Fabiano de Almeida Serpa confessa que sempre sonhou em ocupar tal posição / Crédito: Malavolta Jr.

Comandante do 4.º BPM-I, o tenente-coronel tem pulso firme com a tropa e, ao mesmo tempo, se mostra uma pessoa sensível e dedicada à família

Na recepção do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I), em Bauru, uma exposição com os artefatos usados pelos policiais em períodos como o da Revolução Constitucionalista de 1932 chama a atenção. Entusiasmado, o comandante do órgão, o tenente-coronel Fabiano de Almeida Serpa, de 48 anos, fez questão de explicar pacientemente à reportagem a história por trás de cada objeto, mostrando sensibilidade e extrema admiração pela farda que veste há exatas três décadas. De um lado, o pulso firme em relação à carreira que escolheu ainda na infância. De outro, um homem de grande coração e dedicado à família. Ele, inclusive, chegou a se emocionar ao se lembrar de algumas ocorrências das quais participou ao longo da sua profissão.

Primogênito da professora aposentada Eulália Nunes de Almeida Serpa, de 75, além do já falecido Evandro Serpa, que trabalhava como vendedor para sustentar os três filhos, o oficial nasceu e cresceu em Bauru. Ele só deixou a cidade para cursar o bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública junto à Academia de Polícia Militar do Barro Branco, em São Paulo, no mês de janeiro de 1991, quando havia acabado de completar a maioridade.

Mesmo na Capital, o tenente-coronel nunca deixou de visitar a sua terra natal. Entre uma vinda e outra, ele conheceu a esposa, a artesã Mellissa Gabriel Carnacini Serpa, de 45, com quem teve o filho João Vitor Carnacini Serpa, de 10. A lhasa apso Nina, de 8, também integra a família da qual Serpa fala com orgulho.

À frente do 4.º BPM-I desde janeiro de 2020, dois meses antes da chegada da pandemia da Covid-19 ao município, o tenente-coronel confessa que sempre sonhou em ocupar tal posição. “Salvar vidas não tem preço”, justifica.

A seguir, o oficial narra a forma pela qual o atual cenário mudou as suas perspectivas pessoais e profissionais, principalmente, depois de testar positivo para o novo coronavírus e ficar internado por dez dias, sendo cinco na UTI. Confira alguns trechos da entrevista:

Jornal da Cidade – Como surgiu o desejo de ser policial?

Fabiano de Almeida Serpa – Na infância, eu adorava o filme “Top Gun” e sonhava em trabalhar como piloto da Força Aérea. Fiz um teste vocacional na adolescência e o exame também identificou a minha inclinação para a carreira militar, embora não tivesse qualquer parente nesta área. Optei pela PM para permanecer dentro do Estado de São Paulo, afinal, sou bastante apegado à minha família e não suportaria ficar sem vê-los por muito tempo.

JC – O senhor entrou para o Barro Branco muito novo. Enfrentou alguma dificuldade naquela época?

Serpa – Em primeiro lugar, o distanciamento da família e, em segundo, o rigor militar propriamente dito, bem parecido com o que nós vemos nos filmes, mas serve para testar a nossa vocação para a profissão.

JC – Como chegou à função de comandante do 4.º BPM-I?

Serpa – Eu já comandei todo o efetivo da Polícia Ambiental do ABCD e trabalhei no antigo 1.º Batalhão de Polícia Militar Metropolitana (1.º BPMM). Também fui oficial de Relações Públicas da Polícia Ambiental de Birigui, comandante do Pelotão Ambiental de Bauru e membro da tropa do 27.º BPM-I, em Jaú. No 4.º BPM-I, atuei no Comando de Força Patrulha até ser nomeado o primeiro comandante da recém-inaugurada Base Comunitária de Segurança Oeste. Ainda neste Batalhão, trabalhei como oficial de Relações Públicas, comandante da 3.ª e 4.ª Companhias, além de oficial de RH. De volta para São Paulo, atuei na Academia do Barro Branco e na Assessoria do Comando Geral. Porém, o meu filho pegou meningite e resolvi voltar para ficar mais perto da minha família, momento em que aceitei a proposta de me tornar subcomandante do 32.º BPM-I, em Assis. Logo depois, assumi como subcomandante do 4.º BPM-I, em Bauru, corporação que também comandei interinamente por seis meses. Em 2019, fui promovido a tenente-coronel e assumi o Comando do 27.º BPM-I. Em janeiro de 2020, retornei para o Comando do 4.º BPM-I, onde estou até agora.

JC – Como foi assumir o 4.º BPM-I às vésperas de uma pandemia?

Serpa – Eu sempre sonhei em ocupar este cargo e cheguei cheio de ideais, mas não pude concretizá-las em virtude do atual cenário. Por isso, me senti um pouco frustrado. Por outro lado, com a redução das ocorrências policiais por causa da quarentena, nós conseguimos aprimorar o nosso planejamento operacional.

JC – Alguma ocorrência marcou a sua carreira na polícia?

Serpa – Muitas, mas eu gostaria de destacar duas. Certa vez, não me lembro em qual ano, só sei que se deu no Bela Vista, em Bauru, um homem posicionou um facão no pescoço da esposa, ameaçando matá-la. Nós intervimos e ele desistiu de fazê-lo. Salvar vidas não tem preço. Outra ocorrência que me marcou foi o assassinato do soldado Yuri José da Silva, também em Bauru, no ano de 2014, por um acusado de tráfico, que acabou morto pela polícia depois de uma troca de tiros. A morte de um policial sempre me machuca muito.

JC – Como o senhor faz para superar situações como esta?

Serpa – Eu me apego à minha fé e ao prazer de estar com a minha família, de quem me orgulho muito. Foi devastador ficar sem eles enquanto permaneci internado com Covid-19.

JC – Tem algum hobby?

Serpa – Eu já pratiquei vários esportes diferentes, como hóquei, esgrima, paraquedismo e mergulho, mas gosto mesmo é da série de filmes Star Wars, com destaque para o personagem Darth Vader, que nasceu e morreu herói.

JC – O senhor testou positivo para a Covid-19 e chegou a ficar internado. O que aprendeu com isso?

Serpa – Eu fiquei dez dias internado, sendo cinco na UTI. Usei aquele capacete fabricado pela Plasútil como alternativa para uma intubação iminente, que, graças a Deus, não aconteceu. Aprendi a não subestimar qualquer doença, a valorizar ainda mais a minha família e a apreciar até os pequenos detalhes da vida.

Fonte: https://www.jcnet.com.br/noticias/geral/entrevista_da_semana/2021/03/753744-por-baixo-da-farda–um-grande-coracao.html#.YGBVqAwFqK4.whatsapp

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