Mondelez anuncia saída de Bauru

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Mondelez sairá de Bauru até dezembro. 01/03/2018 Fachada

O que era rumor se tornou realidade. Na manhã desta quinta-feira (1), a multinacional Mondelez, uma das maiores fabricantes de snacks do mundo, anunciou o encerramento de suas atividades em Bauru, com fechamento de 800 vagas de trabalho até o final deste ano.

Alegando a necessidade de “otimizar seu modelo de produção” para “melhorar seus níveis competitivos” e “garantir um crescimento sustentável”, a empresa informou que irá concentrar sua produção nas fábricas de Curitiba (PR) e Vitória de Santo Antão (PE), com a total desativação das unidades de Bauru e Piracicaba até dezembro.

Somente em Bauru, a Mondelez emprega 800 funcionários diretos e proporciona uma arrecadação de R$ 3,5 milhões anuais em ICMS ao município. Na cidade, a companhia, que funcionava no Distrito Industrial 1, era responsável por fabricar gomas de mascar e balas de marcas conhecidas do público, como Trident, Bubbaloo, Clorets, Chiclets, Plets e Halls, produção que passará, gradativamente, para a unidade de Curitiba.

De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação de Bauru e Região, considerando trabalhadores terceirizados e prestadores de serviço, a fábrica emprega quase 3 mil trabalhadores, com remuneração acima da média praticada pelo mercado. “Em relação aos funcionários diretos, os operacionais recebiam cerca de R$ 2,3 mil e os técnicos ganhavam de R$ 6 mil a 8 mil”, detalha o presidente da entidade, Antônio Carlos de Oliveira Matheus, o Pardal.

A estimativa é de que, por mês, a empresa desembolse aproximadamente R$ 2,5 milhões com salários, valor que era injetado quase em sua totalidade na economia de Bauru. “Será um grande prejuízo para Bauru, resultado da fragilidade das nossas lideranças políticas, que não atendem as demandas da iniciativa privada”, critica Pardal, em argumento que foi rebatido pelas autoridades municipais em entrevista coletiva concedida ontem (leia mais nas páginas 3 e 5).

PLANO DE TRANSIÇÃO

Por meio de nota, a Mondelez informou que, “além dos direitos assegurados pela lei, os colaboradores poderão contar com um sólido plano de recolocação profissional e de transição de carreira”. A companhia informa que promoverá, internamente, consultorias, “treinamentos, feiras de emprego e workshops”. Questionada pelo JC, a empresa – que não destacou porta-voz para conceder entrevista à imprensa bauruense – não informou, por exemplo, qual será o cronograma de desativação da fábrica e de demissão dos funcionários.

Depois de fazer, na manhã de ontem, em uma casa de eventos da cidade, o anúncio aos seus empregados, a diretoria da Mondelez no Brasil se reuniu com o sindicato da categoria, quando informou que concederá um pacote de benefícios complementar às rescisões contratuais. Entre eles, estão seis meses adicionais de plano de saúde, seguro de vida e vale-alimentação ao funcionário após a demissão e pagamento de 0,3 salário por ano trabalhado. “Além do pacote geral, estamos reivindicando outro plano específico para gestantes, mães com filhos recém-nascidos e trabalhadores que estão afastados por doença ou acidente. Mas é uma negociação que deve se estender, pelo menos, pelos próximos dez dias”, alega Pardal.

A previsão é de que, assim como ontem, a diretoria volte a se reunir com os trabalhadores hoje e amanhã. As atividades dentro da fábrica só devem ser retomadas na segunda-feira.

Impacto na prefeitura

O fechamento da Mondelez terá, além do impacto social, com 800 desempregados nos próximos meses, um impacto na arrecadação da prefeitura. De acordo com o secretário de Finanças, Everson Demarchi, a empresa era a sétima maior geradora de ICMS em Bauru. A companhia pagava cerca de R$ 120 milhões ao Estado, e desse total, R$ 3,5 milhões voltavam para o município.

O impacto, contudo, só deve ser sentido mesmo em 2020. Isso porque os dados do ano anterior são tabulados para depois ser feito o pagamento. Portanto, neste ano, ainda se trabalha com os números consolidados de 2016, não devendo alterar as contas da prefeitura. Para o ano que vem e o próximo, como a Mondelez já vinha reduzindo sua produção, de acordo com a prefeitura, pode já ser percebida a queda na arrecadação, perdendo para valer apenas daqui dois anos, em 2020, informa Demarchi.

Sindicato e Ciesp querem reverter 

A possibilidade de reverter a decisão tomada por uma multinacional do porte da Mondelez é considerada remota pelas fontes ouvidas pelo Jornal da Cidade. Mesmo assim, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação de Bauru e Região, o Pardal, informou que tentará negociar com a empresa, ao menos, a permanência da unidade local com um volume menor de produção.

“Se conseguirmos manter o mínimo de produção e de postos de trabalho aqui, as chances de a fábrica ser retomada no futuro são maiores”, analisa. Diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Gino Paulucci Júnior informou que solicitou, ainda ontem, reunião com a diretoria da empresa no Brasil para discutir o assunto.

“Vamos tentar agendar para a semana que vem. Não sei se seremos atendidos, mas tentaremos interferir neste processo, se possível for, porque esta notícia foi terrível para a cidade. O prejuízo social para estes trabalhadores é enorme e difícil de ser reparado no curto prazo”, comenta.

‘Todos estamos muito sentidos e preocupados’ 

Samantha Ciuffa
Cristiano Cândido de Jesus já foi demitido

O operador de máquinas Cristiano Cândido Jesus é um dos dirigentes do sindicato da categoria desligados anteontem da Mondelez. “Todos estamos muito sentidos e preocupados. Por mais que a empresa esteja lançando um pacote muito bom, com consultoria para recolocação no mercado de trabalho, acredito que, do jeito que a economia está, não vai dar para incorporar todo mundo, até porque ainda tem muita gente desempregada na cidade”, lamenta.

Assim como ele, seu pai trabalhou por décadas na empresa. O encontro de gerações, Jesus afirma, foi bastante frequente ao longo da história da fábrica, que se instalou em Bauru no final da década de 1970, inicialmente como Kibon, com mudanças no controle acionário com o passar dos anos.

“Nós chegamos a ver pai, filho e neto trabalhando ao mesmo tempo. Até hoje, pais e filhos, marido e mulher, irmãos são funcionários da companhia. Então, em muitos casos, são dois ou três membros de uma mesma família que vão perder o seu ganha-pão”, completa.

Todos pelo Coração de São Paulo

Aquilo que para muitos não passaria de apenas mais uma notícia do setor de economia, a divulgação do fechamento da empresa Mondelez em Bauru, além do desemprego que afetará 800 trabalhadores, diminuindo a renda familiar de todos eles e ainda pela não geração de tributos importantes para manter o setor público em atividade, causa preocupação, mas também tristeza, pelo menos para todos os que têm compromisso e bem querer pela nossa cidade e região, como é o caso do JC. Independentemente das razões do grupo multinacional em tomar essa decisão de desativar suas duas unidades fabris no território paulista (Bauru e Piracicaba), Estado onde, com certeza, tem o maior contingente de consumidores de seus produtos do mercado latino, com seu alto comando tomando decisões que não levaram em consideração outros valores que não sejam os mercadológicos, serve como referência para que também pensemos em estimular aqui e na região o constante incentivo ao nascimento e crescimento de empreendedorismo nativo, que crie uma trajetória de envolvimento com a comunidade, pois são, em matéria de história, muito mais perenes do que os empreendimentos cuja única finalidade é a distribuição de lucros aos seus acionistas.

Não queremos com isso provocar hostilidade a quem quer que venha investir em nossa cidade e região, pelo contrário, devem ser e serão sempre bem-vindos. Mas é tempo de nos unirmos para criarmos políticas que, de fato, valorizem também o empreendedorismo próprio, doméstico, onde o produzir tem, além da busca do lucro para o investidor/empreendedor, e de renda para o trabalhador, a vocação, o desejo de progredir e de compartilhar isso com as comunidades onde atuam e também vivem e convivem como cidadãos.

Mesclando esse empreendedorismo, incentivando o nascimento e o crescimento dessas empresas com  a comunidade, mitigamos riscos dos danos que vazios como a saída da Mondelez deixam na economia e na autoestima da cidade.

Cabe agora, além dos apoios às tentativas de reversão dessa decisão, a reflexão e a união de todos nós, para que tanto na área privada quanto pública e com todos os demais setores da sociedade, como aliados, busquemos todos os processos que nos levem ao objetivo de destravar e desenvolver Bauru e, consequentemente, integrarmos nesse novo ciclo virtuoso toda a nossa região.

Por aqui, além do jornalismo de todos os dias, 24 horas por dia, nos mantemos produzindo material de suporte, eventos, encontros, recepções e pautas que diferenciem e mostrem o nosso potencial de desenvolvimento e gerem atratividade, como continuamos a investir no apoio ao desenvolvimento sustentável, vocacionado e integrado de Bauru e região. (Da Redação)

Demissões

Segundo o sindicato da categoria, a Mondelez garantiu que os funcionários não serão demitidos imediatamente. Na última quarta-feira (28), antes do anúncio oficial do encerramento das atividades em Bauru, a empresa desligou cinco funcionários, todos eles dirigentes sindicais.

Para os demais, a previsão é de que as demissões tenham início em abril, com transferência gradativa da produção local para a unidade de Curitiba. Por meio de nota, a companhia informou que, “havendo vagas abertas, os colaboradores que tiverem mobilidade e perfil compatível serão considerados para transferência”. O sindicato, contudo, acredita que esta oportunidade irá abranger um universo ínfimo do total de trabalhadores de Bauru.

Bauru e Piracicaba vão ao Estado

Políticos pretendem se reunir com o governador na segunda-feira (5) para argumentar que problema também é do Estado, que perde muito ICMS

Fábio Barbosa/Prefeitura de Bauru
Aline Fogolin, Clodoaldo Gazzetta, Sandro Bussola, Roger Barude, Serginho Brum, Coronel Meira e Markinho Souza, em entrevista ontem à tarde, no auditório da Prefeitura de Bauru

A notícia de que a Mondelez vai sair de Bauru mobilizou a Prefeitura de Bauru e a Câmara Municipal. O prefeito Clodoaldo Gazzetta (PSD), a secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Aline Fogolin, e o presidente da Câmara, Sandro Bussola (PDT), concederam entrevista coletiva no final da tarde desta quinta-feira (1), juntamente com os vereadores Coronel Meira (PSB) – presidente da Comissão de Indústria do Legislativo, Serginho Brum (PSD), Roger Barude (PPS) e Markinho Souza (PP), líder do governo.

O Poder Executivo e o Legislativo afirmaram que fizeram tudo o que foi possível para manter a empresa na cidade, atendendo às demandas, como o abastecimento de energia e questões de documentos. Uma última tentativa será feita na semana que vem, possivelmente na segunda-feira, quando Gazzetta, Bussola e outros parlamentares pretendem se reunir com o governador Geraldo Alckmin (PSDB), uma vez que há o entendimento que a carga tributária do estado teve peso na decisão da multinacional. Além de Bauru, a Mondelez vai fechar sua unidade em Piracicaba, e toda a produção no Brasil ocorrerá em Vitória de Santo Antão, que fica em Pernambuco, e em Curitiba, no Paraná.

O prefeito reiterou que manteve contato frequente com os dirigentes da multinacional. “A decisão não tem nenhuma relação com o município. Foi uma decisão da empresa, em nível global, em reduzir de 170 para 130 fábricas no mundo. Pelo contrário, em nossa gestão procuramos nos aproximar de todas as empresas da cidade, atendendo demandas que estão ao nosso alcance”, frisou Gazzetta. A secretária Aline Fogolin enfatizou que vem dialogando com empresas da cidade e outras interessadas em investir no município. Em relação a área da Mondelez, Aline cita que pertence à empresa, pois a concessão é antiga, com mais de 30 anos.

COMITIVA

Gazzetta afirmou que manteve contato com o prefeito de Piracicaba, Barjas Negri (PSDB), que também deve ir a São Paulo, junto com vereadores de Piracicaba, formando uma comitiva com os bauruenses para uma última tentativa de reverter a decisão da multinacional. O vereador Coronel Meira, presidente da Comissão de Indústria da Câmara Municipal, relata que o estado tem seu papel, pois está perdendo a guerra fiscal. “As duas unidades que eram no nosso estado estão saindo e indo para Pernambuco e Paraná. Então significa que São Paulo precisa rever algumas coisas, a questão tributária, para segurar as empresas que estão aqui, e isso cabe ao governador fazer”, aponta.

Sobre política industrial

Ao ser questionado pelo JC sobre a política industrial do município e se há previsão de fomentar os empreendedores locais para uma menor dependência de decisões de multinacionais, o prefeito Clodoaldo Gazzetta e a secretária Aline Fogolin mencionaram que as novas leis aprovadas na Câmara ou que serão enviadas neste ano permitirão essa mudança. “Temos várias leis como a do Alvará Provisório e dos corredores comerciais, outras que serão enviadas, como a ampliação do perímetro urbano e revisão das Zics, que têm relação direta com isso, e vão favorecer quem investe na cidade”, defendeu o prefeito.

Sobre as empresas já instaladas no município, eles afirmaram que nenhuma outra manifestou interesse em sair. Há rumores sobre uma eventual saída da Tilibra, mas Gazzetta se reuniu ontem com o novo presidente, Sidnei Bergamasco, que garantiu a ele o interesse em continuar na cidade, e a prefeitura, por outro lado, quer ajudar encontrando uma área para atender ao plano de ampliação da empresa.

Fonte: https://m.jcnet.com.br/Geral/2018/03/mondelez-saira-de-bauru-anuncia-sindicato.html

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