Mbona Paulo, fundador do Studio Larth, fala sobre criatividade, neurociência, participação das famílias e a missão de formar artistas capazes de pensar, criar e transformar o mundo.
Nos últimos anos, o Studio Larth tem chamado atenção em Bauru por uma proposta que vai além do ensino tradicional de desenho e pintura. Em pouco mais de três anos de atuação, a escola consolidou uma metodologia própria, desenvolveu uma comunidade artística ativa, criou projetos de exibição dos trabalhos dos alunos, promove exposições internas e lançou iniciativas como a Coletânea Artística Studio Larth, que levará obras de estudantes para publicação física e digital com distribuição internacional.
Enquanto muitas escolas de arte concentram seus esforços exclusivamente no ensino técnico, o Studio Larth vem construindo um caminho diferente: utilizar a arte como ferramenta de desenvolvimento humano, criatividade, autonomia e construção de identidade.
Mas afinal, o que está por trás dessa proposta?
Conversamos com Mbona Paulo, arquiteto, mestre em Design pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), artista, pesquisador, educador e fundador do Studio Larth, para entender sua visão sobre arte, educação e os diferenciais que vêm transformando a escola em uma referência regional.
Como surgiu a ideia de criar uma escola de arte, como o Studio Larth?
Mbona Paulo: O Studio Larth nasceu de uma inquietação muito pessoal. Durante anos observei pessoas abandonando o desenho porque acreditam não possuir talento. Ao mesmo tempo, percebia que muitas escolas de arte acabavam formando alunos à imagem de seus professores, sem considerar que cada pessoa possui seu próprio ritmo, interesses, dificuldades e formas de expressão.
Isso sempre me incomodou.
Quando comecei a estudar mais profundamente educação, psicologia da aprendizagem, neurociência, metodologias de ensino artístico e gestão educacional, percebi que existia um problema importante: grande parte das pessoas não fracassa porque não possui potencial, mas porque nunca recebeu orientação adequada.
Muitas vezes o ambiente de aprendizagem não foi pensado para acolher diferentes perfis de alunos. A escola nasceu justamente dessa visão.
Quis criar um espaço onde crianças, adolescentes e adultos pudessem desenvolver suas habilidades de forma estruturada, respeitando seu tempo de aprendizagem e compreendendo que criatividade não é um privilégio de poucos.
Acredito que a função de uma escola de arte não é produzir cópias de um professor. Ela deve ajudar cada aluno a descobrir sua própria voz artística.
Muitas escolas ensinam desenho. O que diferencia o Studio Larth?
Mbona Paulo: A principal diferença é que nós não enxergamos o desenho apenas como uma habilidade técnica.
Claro que a técnica é importante. O aluno aprende perspectiva, anatomia, composição, luz e sombra, pintura e diversos fundamentos artísticos. Mas isso representa apenas uma parte do processo. Nosso foco está no desenvolvimento da percepção, da observação e da compreensão do processo criativo.
A maioria das pessoas acredita que aprender a desenhar significa aprender a movimentar melhor a mão. Na realidade, aprender a desenhar é aprender a enxergar.
Quando um aluno começa a compreender forma, espaço, proporção e observação, ele está desenvolvendo capacidades cognitivas muito mais amplas do que simplesmente reproduzir imagens.
Por isso, nossa metodologia trabalha primeiro a percepção, depois a observação, em seguida a técnica e, finalmente, a construção de uma linguagem artística própria.
Queremos formar artistas independentes. Não apenas pessoas capazes de copiar imagens.
De onde vem essa visão pedagógica?
Mbona Paulo: Ela vem de diferentes referências. Existe influência da educação artística clássica, mas também de pesquisas contemporâneas em neurociência, aprendizagem, educação infantil e design educacional.
Durante minha pesquisa de mestrado na Universidade Estadual Paulista, estudei como experiências educacionais podem ser construídas de forma mais significativa para crianças e jovens.
Uma das conclusões mais importantes foi perceber que a aprendizagem acontece de maneira muito mais profunda quando o aluno participa ativamente do processo.
Essa compreensão influenciou diretamente a metodologia do Studio Larth. O aluno não é um receptor passivo de conteúdo. Ele observa, interpreta, experimenta, erra, corrige, reflete e constrói conhecimento continuamente.
Autores como John Dewey, Lev Vygotsky e Gandhy Piorski mostram que o aprendizado se fortalece quando existe participação, experiência e significado.
Hoje buscamos aplicar esses princípios dentro da sala de aula.
Hoje fala-se muito sobre talento. Qual sua opinião sobre isso?
Mbona Paulo: Eu acredito que o talento existe. Mas acredito também que ele é superestimado. A ciência tem mostrado algo muito interessante. Diversas pesquisas sobre desenvolvimento de habilidades demonstram que competências complexas se desenvolvem principalmente por meio da prática estruturada, orientação adequada e feedback contínuo. Isso muda completamente a forma como enxergamos a arte. Recebemos frequentemente alunos que chegam dizendo:
“Eu não sei desenhar.” Ou: “Nunca tive contato com arte.”
Meses depois, essas mesmas pessoas produzem trabalhos que elas próprias jamais imaginaram ser capazes de realizar.
Então surge uma pergunta:
O que mudou?
Na maioria das vezes, o potencial já estava ali. O que faltava era ambiente, método e acompanhamento.
A participação da família faz diferença no desenvolvimento artístico?
Mbona Paulo: Sim, sem dúvida. Esse talvez seja um dos aprendizados mais importantes que tivemos ao longo desses três anos.
Ao acompanhar a evolução dos alunos, percebemos que aqueles cujas famílias participavam ativamente do processo apresentavam níveis maiores de engajamento, confiança e desenvolvimento. Não estamos falando de pais que sabem desenhar. Estamos falando de pais que demonstram interesse, como:
Que perguntam sobre os trabalhos.
Que valorizam os avanços.
Que comparecem às exposições.
Que celebram conquistas.
Pesquisas na área da educação mostram que o envolvimento familiar influencia significativamente o desenvolvimento acadêmico e socioemocional das crianças.
Na arte isso também acontece. Quando a criança percebe que aquilo que produz tem significado para as pessoas ao seu redor, ela passa a enxergar valor em seu próprio esforço. Por isso incentivamos constantemente a participação das famílias em exposições, eventos e projetos especiais. A Coletânea Artística é um ótimo exemplo disso. Ela não é construída apenas pelos alunos. É uma experiência compartilhada entre escola, estudante e família.
O Studio Larth parece investir muito na valorização dos alunos. Por quê?
Mbona Paulo: Porque acreditamos que produzir arte é importante. Mas compartilhar arte também é. Durante minhas pesquisas sobre experiência educacional, percebi que um dos fatores que mais influenciam a motivação das crianças é o reconhecimento. Todo ser humano precisa sentir que aquilo que faz possui significado.
Muitas vezes um simples elogio, uma exposição ou a oportunidade de apresentar um trabalho pode gerar impactos enormes na autoestima e na confiança de um estudante.
Por isso buscamos tornar visível aquilo que os alunos produzem. Compartilhamos seus trabalhos, mostramos seus processos criativos e criamos oportunidades para que sejam vistos e valorizados.
Existe uma frase que representa bem nossa filosofia:
“A escola existe para os alunos, não para os professores.”
O protagonismo precisa ser deles.
A Coletânea Artística parece ser um passo importante nesse processo?
Mbona Paulo: Sem dúvida. A Coletânea Artística é um dos projetos mais importantes da história do Studio Larth.
Ela permitirá que os alunos publiquem seus trabalhos em uma obra coletiva com registro editorial e distribuição internacional. A publicação será disponibilizada em formato físico e digital através da Amazon. Isso permitirá que familiares, amigos e leitores de diferentes lugares tenham acesso às produções dos estudantes. Mas a coletânea vai muito além de um livro.
Estamos falando sobre pertencimento. Quando um aluno vê sua obra publicada, ele deixa de se enxergar apenas como alguém que frequenta aulas de desenho.
Ele passa a se reconhecer como autor. E isso possui um impacto profundo na autoestima, na motivação e na construção da identidade artística.
Como você enxerga o futuro do Studio Larth?
Mbona Paulo: Vejo o Studio Larth como um projeto educacional muito maior do que uma escola de desenho. Nosso objetivo é construir uma referência regional e nacional em educação artística.
Queremos continuar formando artistas, criando oportunidades e desenvolvendo projetos que conectem arte, educação e desenvolvimento humano.
Hoje já temos alunos atuando profissionalmente com ilustração, retratos, encomendas e projetos criativos. Isso mostra que estamos no caminho certo. Também estamos investindo continuamente na formação da equipe.
Atualmente contamos com professoras que acreditam no propósito da escola e contribuem diariamente para o aprimoramento da metodologia.
Acredito que o futuro da educação artística passa por algo fundamental: menos foco em talento e mais foco em desenvolvimento humano, profissional e criativo.
Para finalizar: qual é o propósito do Studio Larth?
Mbona Paulo: O propósito do Studio Larth é simples de explicar, mas profundo de realizar.
Nós acreditamos que toda pessoa possui potencial criativo. Nossa missão é criar o ambiente, a orientação e as oportunidades necessárias para que esse potencial floresça. Não queremos apenas ensinar desenho. Queremos desenvolver percepção, confiança, autonomia, criatividade e senso de pertencimento.
Porque, no final das contas, a arte não transforma apenas aquilo que produzimos. Ela transforma a forma como enxergamos o mundo. E quando mudamos a forma de enxergar o mundo, também ampliamos nossa capacidade de transformá-lo.