Banco Central diminui Selic para 10,75% ao ano e abre caminho para reduzir ritmo de corte

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Integrantes do Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil. Foto: Raphael Ribeiro/BCB

Banco Central diminui Selic para 10,75% ao ano e abre caminho para reduzir ritmo de corte

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central realizou mais um corte na taxa básica de juros nesta quarta-feira, cumprindo a sequência de quedas previstas no final do ano passado. O corte foi de 0,5 ponto percentual, levando a Selic para 10,75%. Antes, a taxa estava em 11,25% ao ano.

No comunicado, o BC também antevê mais um corte de 0,5 ponto, na reunião de maio. Mas usou o singular para prever esse novo corte somente na próxima reunião, em vez do plural indicando cortes nas próximas reuniões — que acontecem a cada 45 dias. Esse é o principal interesse do mercado na decisão do BC de hoje, já que o corte de 0,5 ponto percentual já era previsto pelos analistas.

O BC indicou que a continuidade de cortes em 0,5 ponto percentual, porém, pode ser interrompida diante do cenário de retomada da inflação no país, trazida, principalmente, pelo reaquecimento do mercado e elevação do Produto Interno Bruto (PIB).

A indicação de que o Banco Central pode mudar o ritmo de cortes aparece quando o comunicado descreve que uma nova redução nessa magnitude vai ocorrer “na próxima reunião”, no singular.

Nos últimos comunicados, o BC falava em “próximas reuniões”, indicando pelo menos mais dois cortes de 0,5 pp. Agora, só há clareza para mais um corte de 0,5 pp, na reunião de maio. A decisão foi unanime entre os diretores do BC.

“O Comitê avalia que o cenário-base não se alterou substancialmente. Em função da elevação da incerteza e da consequente necessidade de maior flexibilidade na condução da política monetária, os membros do Comitê, unanimemente, optaram por comunicar que anteveem, em se confirmando o cenário esperado, redução de mesma magnitude na próxima reunião. O Comitê avalia que essa é a condução apropriada para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário”, disse o comunicado.

 

Inflação volta a preocupar

 

Esta é a sexta redução seguida na Taxa Selic — que caiu ao menor patamar desde fevereiro de 2022, quando estava em 9,25% ao ano. É, portanto, o menor nível em pouco mais de dois anos.

A decisão do Copom sobre a taxa básica de juros acontece em um cenário com a economia ainda aquecida — o que pode pressionar a inflação. Dados recentes divulgados sobre o PIB do ano passado, mostram criação de empregos e elevação da atividade econômica no começo de 2024, colocando em dúvida o impacto disso na inflação e no ritmo de queda da Selic. O IPCA de fevereiro mostrou relativa alta, com a inflação em 12 meses alcançando o teto da meta do BC: 4,5%.

De acordo com a pesquisa semanal Focus feita junto ao mercado, divulgada ontem pelo BC, a projeção para a inflação subiu de 3,77% para 3,79% em 2024 e de 3,41% para 3,52% em 2025. Para o PIB, a previsão de crescimento este ano subiu de 1,78% para 1,79%.

— Entendemos que o comunicado de hoje trouxe uma postura um pouco mais cautelosa, sim, mas que de fato se justifica pelos indicadores recentes de inflação e atividade. A inflação de serviços e serviços subjacentes ganha ainda mais relevância, uma vez que a resiliência apontada por ambas é bastante significativa, bem como os indicadores de atividade recentes, com números que mostram um aquecimento importante ainda em serviços e varejo – afirmou Helena Veronese, economista-chefe da B. Side Investimentos.

A economista ainda destaca as incertezas do cenário global com a manutenção da taxa de juros pelo Banco Central dos Estados Unidos, o Fed.

– Não menos importante, o cenário ainda incerto em relação ao início de cortes pelo Fed claramente tem sido observado com muita atenção pelo Copom, e não há dúvida de que a movimentação por lá irá influenciar decisões por aqui – disse.

O mercado avalia que o tom do comunicado divulgado nesta quarta está mais duro em relação ao da última reunião, especialmente especialmente na mudança do plural para o singular no indicativo de novos cortes de mesma magnitude nas “próximas reuniões”, além dos trechos em que o Comitê de Política Monetária (Copom) destaca uma maior incerteza no cenário econômico doméstico

Nova composição: Presidente e diretores do Banco Central

Roberno Campos Neto, presidente do Banco Central — Foto: Raphael Ribeiro/BCBGabriel Muricca Galípolo - Diretor de Política Monetária — Foto: Pedro França/Agência Senado

Ailton Aquino dos Santos - Diretor de Fiscalização  — Foto: Pedro França/Agência Senado

Comitê de Política Monetária (Copom) é formado pelo presidente do BC e mais oito diretores

O BC diz que a conjuntura atual é caracterizada por um estágio do processo desinflacionário que tende a ser mais lento, expectativas de inflação com reancoragem apenas parcial e um cenário global desafiador, demanda serenidade e moderação na condução da política monetária.

“O Comitê reforça a necessidade de perseverar com uma política monetária contracionista até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas”, afirmou.

– No (mercado doméstico), o BC cita que a inflação subjacente está incompatível com a meta, realmente acelerou um pouco. A conclusão dessa alteração de cenário fez com que o BC optasse por falar que o balanço de riscos ficou mais incerto e, como consequência, houve a retirada do plural. Isso não deve alterar o cenário que a gente já previa. A gente mantém a Selic se aproximando de 9% e chegando em 2025 abaixo de 9% – afirma Rafael Cardoso, economista-chefe da Daycoval Asset.

s economistas avaliam que a opção do BC de mudar o comunicado é uma estratégia para ter maior flexibilidade na condução da política monetária, se precavendo de subidas inflacionárias. Mas os especialistas pontuam que o cenário base ainda permite uma previsão de cortes seguidos.

— Mantemos nosso cenário que ainda contempla duas quedas adicionais desta magnitude, com o ciclo sendo finalizado com um ajuste derradeiro de 0,25 em julho. Com isso, projetamos Selic em 9,5% ao final deste ciclo, com uma redução residual em 2025 para 9,0% – disse Silvio Campos Neto, da Tendências Consultoria.

No comunicado, o BC também reforma a manutenção das metas fiscais já estabelecidas, para este ano, um déficit zero.

“Tendo em conta a importância da execução das metas fiscais já estabelecidas para a ancoragem das expectativas de inflação e, consequentemente, para a condução da política monetária, o Comitê reafirma a importância da firme persecução dessas metas”, diz o texto.

Economistas avaliam que o tom do comunicado divulgado nesta quarta está mais duro em relação ao da última reunião.

— A inflação no Brasil e a condução da taxa de juros nos Estados Unidos são incertezas importantes no radar, então o comitê quis se desamarrar para poder responder a surpresas que podem acontecer — opina Fernando Gonçalves, superintendente de pesquisa econômica do Itaú, que projeta o fim do ciclo de cortes em 9,25%.

Gonçalves destaca que, na semana que vem, os investidores estarão atentos à ata da reunião do Copom para entender melhor como o Banco Central vê o cenário econômico doméstico, uma preocupação que não tinha sido destacada no comunicado da reunião anterior.

— O Banco Central reconheceu que o cenário macroeconômico teve uma deterioração e mostrou uma maior preocupação com as medidas de inflação subjacentes, que antes estava perto da meta e agora está acima — afirma Álvaro Frasson, economista do BTG Pactual,

Para Claudia Moreno, economista do C6 Bank, apesar das preocupações sinalizadas no comunicado, o Banco Central deve permanecer no mesmo ritmo de cortes de 50 pontos-base nas próximas reuniões:

— Achamos que, perto do fim do ciclo, realmente chegou a hora de ganhar essa flexibilidade, e a mudança comunicação não necessariamente quer dizer que o Banco Central vai mudar o ritmo de cortes, até porque as projeções de inflação ficaram estáveis — ela comenta.

FONTE: https://oglobo.globo.com/google/amp/economia/noticia/2024/03/20/banco-central-corta-selic-para-1075percent-ao-ano.ghtml#amp_tf=De%20%251%24s&aoh=17109727563912&referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com

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