Em entrevista exclusiva ao MKTEsportivo, narrador comenta sobre o avanço do streaming e o futuro do setor
O streaming tem ampliado sua presença no consumo esportivo brasileiro e transformado de forma definitiva a maneira como o público assiste futebol. Um dos líderes dessa mudança é o YouTube, que ocupa cada vez mais espaço nas preferências dos torcedores, em um movimento que aponta para um cenário irreversível. Lives com linguagem mais próxima do público, transmissões com interação via chat e formatos inovadores tornaram a plataforma um ambiente natural para o fã contemporâneo.
Esse movimento aponta para um cenário irreversível: o futebol não é mais consumido apenas como um espetáculo passivo, mas como uma experiência digital completa, multiplataforma, onde o torcedor escolhe quando, como e com quem quer assistir. Mas há algumas ressalvas.
Em entrevista exclusiva ao MKTEsportivo, o narrador e apresentador Milton Leite falou sobre essa transformação que considera um “caminho sem volta”, apontando os efeitos positivos e negativos dessa descentralização.
“Nos últimos anos, os direitos esportivos foram pulverizados por canais abertos, por assinatura, streaming, redes sociais e internet. Está acontecendo uma pequena revolução que ainda não é possível prever aonde vai chegar. Mas parece ser um caminho sem volta – o público mais jovem mudou completamente o hábito de assistir aos eventos e à própria televisão. Há aspectos positivos, como a democratização das transmissões e do jeito de fazer, atendendo aos mais variados públicos. Mas também há aspectos negativos, como muitos curiosos e aventureiros invadindo o mercado”, afirmou Milton, que após mais de duas décadas na Globo, deixou a emissora em 2024 logo após as Olimpíadas de Paris e no início da atual temporada, integrou as transmissões do Paulistão pelo UOL.
Esse novo comportamento de consumo reflete um processo mais amplo de transformação no mercado esportivo, onde as barreiras tradicionais de transmissão são constantemente desafiadas. É nesse contexto que se insere a profunda mudança vivida pelo Brasil, com partidas sendo exibidas em plataformas pagas, redes sociais e até por canais independentes, ampliando ainda mais as possibilidades de acesso e diversificação do conteúdo esportivo.
Milton avalia que essa descentralização gera novas possibilidades para profissionais do setor, mas também impõe desafios ao público que busca acompanhar os embates.
“O lado bom é para os profissionais. Abriram-se muitas vagas e muitas oportunidades de trabalho. Muitos novos narradores, comentaristas, repórteres, apresentadores foram necessários para suprir tantos canais de transmissão. Quando eu comecei na área, eram basicamente duas ou três emissoras abertas transmitindo esportes. Depois veio a TV por assinatura, seguidos pelos canais de ‘pay-per-view’. Agora multiplataformas, graças ao crescimento da internet e da sua qualidade. Mas se para o nosso mercado foi ótimo, para quem assiste ficou mais complicado. Primeiro, porque nunca se sabe direito quem transmite qual jogo. E, depois, porque quem quer assistir a tudo tem que ter várias assinaturas, o que certamente onera o bolso do consumidor”, pontuou.
Esse cenário se reflete nas principais competições de futebol do país. Em 2025, clubes da Libra têm seus jogos exibidos pelo Grupo Globo, mesma situação dos times da LFU, cujas partidas também estão distribuídas entre Globo, Record (TV aberta, R7.com e PlayPlus), CazéTV (YouTube) e Prime Video.
A mesma lógica de distribuição por múltiplos canais e plataformas é seguida pelos Estaduais, Copa do Brasil, Libertadores, Sul-Americana, Mundial de Clubes e outras competições, oferecendo ao torcedor diferentes caminhos para acompanhar os jogos, mas exigindo maior organização e investimento.

Mais que futebol: Olimpíadas e novos formatos
Milton ressaltou que sua paixão por esportes vai muito além do futebol. Com uma carreira marcada por coberturas variadas, expressa sua preferência pelos Jogos Olímpicos em relação à Copa do Mundo, citando como exemplo a recente iniciativa de Gabi Guimarães, que criou um canal no YouTube para exibir as partidas de seu time no Campeonato Italiano de vôlei, com narração em português, como forma de contornar a ausência de transmissão oficial no Brasil.
“Eu nunca fui um narrador de futebol. Sempre fui narrador de esportes. Em Jogos Olímpicos fiz transmissões de natação, basquete, vôlei, ginástica, atletismo… Tenho na carreira vários mundiais de natação, basquete, ginástica… Portanto, não vejo problema em me dedicar a outras modalidades, porque gosto muito desta variação (entre Copa de Futebol e Olimpíada, prefiro a Olimpíada). Com relação à iniciativa da Gabi Guimarães acho muito legal, mais uma oportunidade de democratizar as transmissões, permitir que as pessoas aqui no Brasil assistam aos jogos dela que nem sempre estão nas emissoras daqui. E com comentários em português abre espaço para profissionais daqui e ajuda o entendimento dos espectadores”, elogiou.
Ao analisar o futuro, Milton acredita que o cenário atual tende a se consolidar com uma convivência entre diferentes formatos de mídia.
Para ele, as redes sociais, especialmente entre os mais jovens, impõem uma linguagem mais ágil, leve e superficial, visto que esse estilo, segundo sua análise, ainda complementa os formatos tradicionais, mas pode se tornar predominante à medida que esse público envelhecer e ocupar espaços de decisão na indústria da comunicação esportiva.
Aberto ao futuro
Com seis Copas do Mundo no currículo, o jornalista de 66 anos não descarta a possibilidade de estar envolvido com as transmissões do Mundial de 2026 nos Estados Unidos. Embora hoje esteja sem contrato fixo, afirma estar disponível para convites e projetos que envolvam narração, apresentação ou comentários.
“Com o UOL não há planos. Foi um trabalho por obra, o Paulistão 2025. Não sei se acontecerão outros lá. Não tenho planos. Eu me considero um cara preparado para narrar, apresentar, comentar, escrever… Ao longo de 47 anos de carreira fiz tudo isso, e bem (modéstia à parte). Se aparecem oportunidades de trabalho nestas funções, vou avaliar com carinho. E nas funções que você citou, por iniciativa individual, não vou fazer. Se acontecer de algum projeto me convidar para estas atividades, vou ouvir com carinho, porque acho que também posso fazer bem”, concluiu Milton Leite.
